sábado, 7 de fevereiro de 2009

Bertolt Brecht para crianças


Bertolt Brecht foi um poeta e dramaturgo alemão.

Ele queria que a arte servisse para transformar o mundo. Era político e pacifista. Enquanto alguns buscavam a boa nova, ele procurava a nova verdade. Uma verdade onde estivessem representados também os pobres e oprimidos. Mas ele também escreveu para crianças? Essa pergunta nos pega de surpresa. Sim, muitos de seus poemas podem ser dirigidos às crianças. Poemas que falam de alfaiates que querem voar, de pipas que cumprimentam aeroplanos, de casas junto ao lago, entre árvores, de ameixeiras que prometem frutos e de ladrões de cerejas que pagam o que roubam com canções.

Um Brecht diferente, menos sisudo e mais terno. Um Brecht, enfim, que usa uma linguagem acessível às crianças.

Eis algumas de suas obras:


A Fumaça


A casinha
Entre árvores junto ao lago,
Do telhado sobe a fumaça.
Se ela faltasse,
que tristeza seria
Casa, árvores e lago.



Hollywood

Toda manhã, para ganhar meu pão,
Vou ao mercado onde se compram mentiras
Cheio de esperança,
Pego a fila dos vendedores.




Troca de roda

Sento na beira da estrada.
O motorista troca a roda.
Não gosto do lugar de onde venho
Não gosto do lugar para onde vou.
Porque olho a troca da roda
Com impaciência?




A ameixeira



No pátio tem uma ameixeira
Pequena, não existe menor
Para ninguém nela pisar,
Puseram grade ao redor

Deseja se desenvolver
Encorpar, ficar bem maior
Mas nunca poderá crescer
Sem receber a luz do sol.

Difícil saber se é ameixeira,
Pois ameixas ainda não há,
Mas é ameixeira, com certeza,
Pelo tipo de folhas que dá.



Escrito com giz no muro


Queremos a guerra.
Quem isso escreveu
Já morreu.


Regar o jardim


Regar o jardim, dar viço o verde!
Regar plantas sedentas! Seja generoso.
E não se esqueça dos arbustos, nem
Os sem frutos, os esgotados,
Os avaros! E não se esqueça
Da erva entre as flores, que também
Tem sede. Não regue apenas
A grama fresca ou e a ressequida:
Refresque também o solo nu.


A pipa


Voa, voa, graciosa pipa
Sobe ao céu, solta as asas,
Voa, voa, no horizonte,
Sobre nossas pobres casas.

Se na linha preso estás,
Pipa graciosa de papel,
Audaz, aos quatro ventos,
Solta-te, no azul do céu.

Voa, pipa, pois contentes
A te olhar aqui ficamos.
És precursora dos aeroplanos:
Vire-se e os cumprimente.




O ladrão de cerejas



Uma manhã, bem cedo,
Antes do primeiro canto do galo
Acordei com um assovio
e fui à janela.
Em cima da cerejeira
–a madrugada inundava meu jardim –
vi um rapaz de calças remendada
colhendo alegremente minhas cerejas.
Ao me ver,
saudou-me com a cabeça,
enquanto, com as duas mãos,
passava as cerejas dos ramos para os seus bolsos.
Depois de um bom tempo de novo em minha cama,
Ouvi o assovio de sua alegre canção.



O alfaiate de Ulm (1592)


"Bispo" disse o alfaiate,
"Eu agora consigo voar!"
Se quiser, posso lhe mostrar.
E dizendo, o alfaiate,
com asas muito estranhas,
subiu no teto da matriz,
mas o bispo saber não quis.
"Isso é um grande disparate"
falou ele ao alfaiate,
"o homem pássaro não é
E voar é impossível",



"Mas o alfaiate é diferente",
disse ao Bispo muita gente.
Não adiantou. E que confusão!
Do vôo malogrado do infeliz
Sobrou um corpo estatelado
Bem na praça da matriz,
Os sinos começaram a bater.
E o Bispo falou: "defender
Que um homem pode voar
é falta de fé. Ele nunca voará
por um motivo: pássaro não é."

Sergio Caparrelli in wwww.trigrealbino.com.br

Um comentário:

ANORKINDA disse...

Que maravilha deslumbrante foi encontrar este blog esta noite!

Muito obrigada por todo seu trabalho, tanto na escrita, quanto no acervo!

Virei freguesa!