segunda-feira, 14 de abril de 2008

A Escolha de Bebel

Todo mundo conhece a Bebel.

O padeiro, o carteiro, o quitandeiro e o jornaleiro.

Bebel é uma menina muito esperta e faladeira.


Aos cinco anos, aprendeu a ler sozinha e depois disso, desembestou pela vida a ler.
Bebel lia durante o dia, durante a noite, lia o tempo todo: jornal, revista, gibi,classificados, e até bula de remédio.

Um dia, Bebel estava lendo sentadinha na varanda da sua casa, comendo pipoca e bebendo refresco de caju, quando de repente, ouviu um barulhinho esquisito.
Largou o livro em cima da mesa e curiosa, correu para olhar atrás do sofá da sala.

Será que o pai resolvera lhe fazer uma surpresa e lhe dar de presente o cachorrinho que ela tanto queria?

A menina correu toda animada para o local.
Só que atrás do sofá, não tinha cachorro não.
O que Bebel encontrou foi a maior surpresa de toda sua vida.

Uma mulherzinha pequenina do tamanho de um botão, esborrachada no chão da sala.
Como ela nunca tinha visto alguém tão pequeno em toda a sua vida, Bebel deu um baita grito, e assustada se escondeu atrás da estante de livros.

Bebel não sabia se corria, se gritava, se chorava, se ficava...

Foi então que de repente, a mulherzinha levantou-se do chão, e ficou procurando uma sujeirinha na saia que vestia.



Do seu esconderijo, Bebel observou a mulherzinha pequena, e pensou cá com seus botões se ela existia realmente ou se era apenas fruto da sua imaginação.

Foi quando a mulherzinha falou:

-Olá, não se assuste pode sair daí. Eu sou sua Fada Madrinha e estou aqui para realizar todos os seus desejos. Quer dizer, todos os seus desejos não, somente alguns. Porque criança tem que ter limites, senão já viu né?

Bebel piscou os olhinhos com a novidade.

Que vontade danada de pular!
Dar uns pulos assim bem altão, no meio da rua, no meio do mundo ou quem sabe dançar uma valsinha.

-E então? O gato comeu sua língua?Quer dizer que não quer ter os seus desejos realizados?- Perguntou a sua pretensa Fada Madrinha.

Bebel pensou bem. E como não? E porque não?
Que criança não gostaria de ter uma Fada Madrinha a sua disposição, realizando todos os seus desejos?
Isso era bom demais até para sonhar! Quanto mais para ser verdade!
Poderia pedir quilos de balas, centenas de brinquedos, um circo particular, dez cachorros, quinze coelhos, quem sabe, um elefante cor de rosa, ou até uma piscininha de plástico?

Mas peraí!
Olho no olho.
Dente no dente.
Não é bem assim que a banda toca não!

-Em primeiro lugar, você sabe que as crianças não devem falar com estranhos, não é mesmo?- perguntou Bebel.

- Correto. Corretamente-Respondeu a fada prontamente.

- Então você precisa me provar em primeiro lugar que é uma fada. _Disse Bebel.
-Lógico, logicamente, a menina Bebel tem razão. Senão qualquer um por aí pode dizer que é uma fada não é mesmo?

Bebel concordou.

Então, a fada resolveu fazer uma demonstração de suas altas qualidades mágicas. Pegou sua varinha de condão e transformou o lustre da sala num bonito e grandioso cacho de bananas.

Por Deus! Que lindo!Um cacho de bananas madurinho madurinho!
A Mãe de Bebel é que não ia gostar nadinha daquela novidade, mas ela por ela mesma, estava satisfeita.

Então aquela mulherzinha pequena e esquisita era mesmo uma fada madrinha!
A sua Fada Madrinha!

-Então, você é mesmo uma fada. E pode realizar qualquer desejo?- perguntou a menina interassada.

-Sim, sinimsim._Disse a fada toda orgulhosa de si mesma.

Bebel pensou mais um pouquinho e disparou:

-Bem, eu tenho um pedido muito difícil. Mas já que você é uma fada madrinha, não deve estranhar pedidos difíceis não é mesmo?

-Mais ou menos. Existem muitos pedidos esquisitos porque existem muitas pessoas diferentes nesse mundo. É a tal da diversidade. _A fada respondeu distraída, procurando dentro da sua maleta, o seu guarda-chuva cor de rosa brilhante.
Sabe-se lá, e se começasse a chover? O tempo hoje em dia anda tão instável.

Bebel rodopiou sob seus pezinhos, e tascou:

-Bem, eu quero ser o personagem de um livro de história infantil.
-Ah! Que bonitinho! É pra já!– respondeu sua Fada Madrinha dando um gritinho feliz.

Pra quem não sabe, as fadas madrinhas tem um quê de mãe, misturado com vó, e com tia avó, e com tataravó. Por isso, elas são essas gracinhas sem fim.

-Mas peraí, qual personagem você gostaria de se tornar? Chapeuzinho Vermelho?

Bebel parou para pensar:
-Chapeuzinho Vermelho não, eu não quero ser engolida pelo Lobo Mau.
-Que tal então a Bela Adormecida?
Bebel negou a cabeça veementemente.
-Eu hein! Passar cem anos dormindo! Nem pensar!
Suspirando, a fada resolveu pregar os botões da saia da fada Zazá.
-Então, a Cinderela?
-Não. A Cinderela também não, ela vive toda suja de cinza e ainda por cima é espezinhada pelas irmãs e pela madrasta.
-Rapunzel.
-Não quero viver trancada numa torre.
-A princesa e a ervilha?
- Não, e não. Gosto de dormir bem.
-A Bela.
-Ah não, a Bela não. Eu tenho pavor da Fera.

-Ah já sei!_Disse a fada toda entusiasmada_ Você não que ser a Branca de Neve?
-A Branca de Neve? – disse a menina desolada. _Ah essa daí não. Se não bastasse viver com uma bruxa má, ainda por cima teria que ficar um tempão da história dentro de uma caixa de vidro esperando o príncipe. Ninguém merece um destino desse!

A fada madrinha já estava ficando impaciente e para relaxar, resolveu pintar as
unhas com seu novo esmalte arco íris cintilante. Aquele desejo estava demorando demais para seu gosto.

-Pelo de Asno?_ Arriscou a fada voante
-Deus me livre!
-A Pequena Vendedora de Fósforos?
-Cruzes, essa história é muito baixo astral!
-Já sei! Já Sei! Descobri! Alice no País das Ma-ra-vi-lhas!
-Nossa! Você acha realmente aquele país uma maravilha?

A Fada Madrinha suspirou e começou a guardar seus breguetes dentro da sua maleta.

Abriu seu guarda chuva cor de rosa brilhante decidida a ir cantar em outro terreiro.
Nunca tivera uma afilhada mágica tão indecisa assim.
Vendo que sua Fada Madrinha estava perdendo a paciência com a sua conversa mole, Bebel ficou toda sem graça. Só mesmo sendo uma fada para aturar tanta indecisão.
Mas fazer o quê? São ossos do ofício, não é mesmo?

-Então, sem querer ser chata. Que personagem você deseja ser?É só escolher, que plic plic bum, eu a transformo!- disse a fada encralacada.

Bebel deu um pulo que quase caiu.
- Já sei, já sei, quero ser a Emília!
-Emilia?-Perguntou a fada cerzindo as meias do Sr. Fado.

-É isso mesmo quero ser a Emilia, a personagem mais admirável, fantástica, feliz, inteligente e engraçada de todos os milênios.
-Ah! A Emilia, a boneca de pano, espevitada como ela só, inventada pelo seu José Bento?- perguntou a fada, só para ter certeza.
-Elazinha mesmo!Quero ser essa bonequinha maravilhosa e viver uma aventura dessa fantástica maluquinha. Uma aventura lá pelos lados do pica-pau amarelo, com direito a muito divertimento e histórias de onça, casamentos com título de nobreza, deliciosos bolinhos de chuva, fantasia, magia e muita animação!

- Tá bom, Tá bom! Desejo feito, desejo realizado!
- Peraí, peraí, peraí. A Emília é uma personagem assim, maravilhosa, mas é casada com um leitão. Acho que...não gostaria de estar casada com um leitão!Talvez seja melhor eu escolher outro personagem.

- A Sereiazinha?
-Não.
-A Pastora de Gansos?
-Não.
-A Dama e o Leão?
-Não.
-A Donzela Que Não Tinha Mãos?

-Ai! Chega! Chega! Chega!Eu já sei o que eu quero ser!Dessa vez é para valer!_ Gritou Bebel.
A fada deu pulos de alegria. Afinal já estava cansadíssima de tanto lenga lenga.
-Ai que bom! Diga logo então, queridinha, não temos mais tempo a perder.

- Sabe D. Fada Madrinha, essas personagens são ótimas. Quer dizer, cada uma tem vida própria, um brilho especial que as fazem ser quem são. Mas....
-Mas... _continuou a fadinha curiosa
-Mas elas já foram inventadas. - Declarou Bebel como uma sentença.
A fadinha olhou para Bebel e achou aquela conversa muito estranha.
-É claro que elas já foram inventadas!Essas histórias fazem parte do imaginário infantil há milhares e milhares de séculos, quando você menininha, nem pensava em nascer!

-Eu sei. Mas eu descobri que eu não quero ser uma personagem inventada, o que eu quero mesmo é inventar! Sabe D. Fada Madrinha, eu quero ser escritora. Quero inventar minhas próprias histórias, minhas próprias personagens. Quero inventar história de astronauta e mudar a rota do foguete, de princesa que quebra o pé, de elefante que toma banho de chuveiro. Se eu inventar minhas próprias histórias, posso fazer o que eu quiser. Posso até conquistar um planeta de monstros esquisitos e narigudos, já pensou que maravilha ser uma fazedora de conta!

A fadinha suspirou, aliviada.

-Ahhhhhhhh!Enfim compreendi. Então queridinha, para realizar esse desejo você não precisa de fada madrinha. Saber fazer de conta é uma magia que toda criança e que todo adulto que tem uma criança dentro de si, sabe fazer muito bem. Isso não é magia inventada!É magia pura! Magiada!Agora, eu vou embora que estou muito atrasada. É tarde! É tarde. _ disse a fada madrinha transformando-se em coelho e indo embora saltitando.

E Bebel correu para o seu quarto e escreveu, escreveu sem parar.
Escreveu sobre um mundo até depois das nuvens, onde ficava o planeta do Era uma Vez. Lá é tudo muito colorido e bonito. Tem fadas saltitantes, gigantes felpudos, magos de um olho só e jacarés desdentados.

Bebel ficou tão feliz, mais tão feliz que pensou que fosse desmaiar!
Finalmente, ela fazia parte do mundo da imaginação e podia fazer a história que bem entendesse!
Ou que não entendesse também!


E assim, Bebel cresceu e se tornou Fazedora de Conta Oficial, mas também gosta de ser chamada de escritora. Ela vive num tempo mágico sem começo nem fim, e imagina um montão de coisas boas e alegres para todas as crianças.

Ás vezes as histórias tem um tantinho de mistério, um tantinho de suspense, muito riso e até algumas lágrimas, porque não há nesse mundo quem se aperte por tão pouco...